Canetas emagrecedoras e obesidade no Brasil: desigualdades, limites do acesso e o papel do SUS

Doença crônica, progressiva e com tendência à recorrência, a obesidade é considerada uma epidemia global pela Organização Mundial da Saúde (OMS), afetando cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo. 

No Brasil, a situação não é diferente: dados do Covitel, disponíveis no Observatório de Saúde Pública (OSP) da Umane, mostram que, no primeiro trimestre de 2023, a obesidade atingia 22,8% da população brasileira. Já o excesso de peso atingia, neste mesmo período, mais da metade da população – 56,8%. A prevalência é ainda maior entre pessoas de 45 a 54 anos, faixa etária em que o percentual de obesidade chega a 29,6%. Dados do Vigitel, também disponíveis no OSP da Umane, mostram que a obesidade entre adultos residentes nas capitais brasileiras vem crescendo de forma contínua desde o início da série histórica, em 2006. No período, a prevalência do excesso de peso passou de 42,4% para 61,2% em 2023, um aumento de 18,8 pontos percentuais.

Canetas emagrecedoras entram no debate global sobre o tratamento da obesidade

Nesse contexto crítico, as canetas emagrecedoras passaram a ganhar espaço no debate público, tanto no Brasil quanto em outros países. Baseadas em medicamentos que atuam no hormônio GLP-1, responsável pela regulação do apetite e da saciedade (e muitas vezes adotados como remédio para emagrecer), essas terapias se popularizaram após estudos clínicos indicarem perdas médias de 10% a 15% do peso corporal em pessoas com obesidade.

Diante dessas evidências, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou, no início de dezembro de 2025, sua primeira diretriz sobre o uso desses medicamentos no tratamento da obesidade. O documento reconhece o uso como uma opção terapêutica para adultos, com exceção de mulheres grávidas, e destaca que o tratamento farmacológico deve ser sempre complementar a intervenções de longo prazo, como alimentação adequada e prática regular de atividade física.

A própria OMS ressalta que a mudança de hábitos segue sendo a estratégia mais efetiva no enfrentamento da obesidade. Intervenções baseadas em alimentação adequada e saudável, prática regular de atividade física, sono de qualidade e manejo do estresse atuam sobre determinantes estruturais do ganho de peso e produzem benefícios duradouros para a saúde, que vão além da redução do índice de massa corporal (IMC), como a melhora do perfil metabólico, da saúde mental e da qualidade de vida. Nesse contexto, o uso de medicamentos apresenta limitações importantes, como a necessidade de uso contínuo e as barreiras de acesso associadas ao custo, reforçando que a medicalização não substitui estratégias estruturantes de promoção da saúde.

No Brasil, o debate sobre o uso desses medicamentos ocorre em um contexto de limites estruturais do sistema de saúde. Em junho de 2025, dois desses fármacos foram submetidos à avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), por meio de consulta pública. Após analisar as evidências científicas, o impacto orçamentário e a relação custo-efetividade, a Conitec emitiu parecer contrário à incorporação dos medicamentos ao SUS, citando principalmente restrições orçamentárias e fiscais.


APS na prevenção e no cuidado contínuo de pessoas com obesidade

Diante desse cenário, o enfrentamento da obesidade no Brasil exige estratégias que vão além do acesso a medicamentos e sejam capazes de alcançar a população de forma ampla e equitativa. Nesse sentido, a Atenção Primária à Saúde (APS) ocupa papel central no SUS, ao atuar tanto na prevenção quanto no cuidado contínuo das pessoas com excesso de peso e obesidade, a partir de uma abordagem integral e de longo prazo.

Dados do próprio Vigitel mostram que fatores relacionados ao estilo de vida seguem sendo desafios importantes. Em 2023, apenas 21,3% da população adulta das capitais brasileiras, cerca de 7,4 milhões de pessoas, atingia a recomendação diária de consumo de frutas e hortaliças. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a recomendação é de ao menos 400 gramas de frutas e hortaliças por dia, o equivalente a cinco porções diárias.

O padrão de atividade física também reforça esse desafio. No mesmo ano, segundo o Vigitel, 46% dos adultos residentes nas capitais brasileiras, mais de 16 milhões de pessoas, não praticam nenhuma atividade física. De acordo com a OMS, a prática regular envolve ao menos 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada, distribuídos ao longo da semana.

Fortalecer o SUS é essencial para enfrentar a obesidade com equidade

Esses comportamentos, influenciados por condições sociais, econômicas e ambientais, reforçam a necessidade de estratégias que vão além do tratamento individual. É nesse contexto que a Atenção Primária à Saúde (APS) se consolida como eixo estruturante do cuidado no SUS.

O enfrentamento da obesidade envolve ações como promoção da alimentação adequada e saudável, incentivo à prática de atividade física, acompanhamento clínico regular, apoio multiprofissional e planos de cuidado construídos a partir da realidade dos territórios. 

Medicamentos como as canetas emagrecedoras podem representar uma opção terapêutica para grupos específicos, desde que integrados a essas linhas de cuidado. Ainda assim, seu impacto populacional é limitado pelo custo elevado e pela necessidade de uso contínuo.

Fortalecer a APS, ampliar o acesso a ambientes e escolhas alimentares saudáveis e consolidar políticas públicas de promoção da saúde seguem sendo caminhos essenciais para enfrentar a obesidade no Brasil.

Acesse o blog do Observatório da Saíde Pública da Umane