Saúde em áreas isoladas: desafios e soluções mapeados na Amazônia
Garantir o direito à saúde em territórios de difícil acesso ainda é um dos maiores desafios do SUS. Em áreas ribeirinhas, extrativistas, quilombolas e outras comunidades isoladas, o acesso aos serviços básicos depende de longas viagens pelos rios, infraestrutura limitada e da presença intermitente de equipes de saúde.
Para compreender melhor esse cenário e identificar estratégias que vêm sendo usadas para enfrentar essas barreiras, o Instituto Veredas e a Umane realizaram, entre agosto de 2024 e fevereiro de 2025, um estudo sobre atenção à saúde para populações isoladas na região Amazônia-Águas. O trabalho, disponível na Biblioteca do Observatório da Saúde Pública, da Umane, combinou revisão documental, análise de literatura científica e cinzenta, entrevistas com profissionais e visitas de campo a municípios e comunidades ribeirinhas.

O relatório reitera o papel fundamental dos Agentes Comunitários de Saúde, descreve obstáculos concretos ao acesso à atenção primária e reúne exemplos de soluções construídas a partir das próprias condições do território, como unidades básicas fluviais, arranjos comunitários para abastecimento de água e energia e iniciativas de telessaúde.
A distribuição dos serviços também ajuda a dimensionar o cenário. Em 2022, a região registrava 216 centros de saúde, 202 postos de saúde, 92 unidades de atenção à saúde indígena e apenas 30 unidades móveis fluviais, fundamentais para atender comunidades de difícil acesso. Esses números reforçam que, mesmo com oferta instalada, o acesso depende de condições climáticas e logísticas que variam muito entre os municípios.

Saúde na Amazônia: principais desafios de acesso em áreas isoladas
O acesso à saúde nessas áreas é condicionado por fatores geográficos e logísticos que dificultam a continuidade do cuidado. Em muitas localidades, o deslocamento até um serviço depende exclusivamente dos rios, com viagens longas e caras. O trajeto entre Manaus e municípios do interior pode durar até 39 horas em lancha rápida, e deslocamentos dentro de reservas extrativistas exigem gastos elevados com combustível, muitas vezes incompatíveis com a renda das famílias. A sazonalidade, marcada por períodos de seca e cheias, também interfere diretamente na navegabilidade, podendo interromper deslocamentos e isolar comunidades.
A precariedade das infraestruturas energética, digital e sanitária amplia essas barreiras de saúde na Amazônia. Em várias regiões, o abastecimento de água depende de microssistemas comunitários ou do consumo direto de rios e lagos, o que aumenta a exposição a doenças causadas por água contaminada. A ausência de energia elétrica estável limita o funcionamento das unidades de saúde e restringe o uso da telessaúde.
Esses desafios se somam à rotatividade de profissionais. Atrair e fixar equipes em áreas com pouca infraestrutura é um desafio persistente, e muitas comunidades contam apenas com Agentes Comunitários de Saúde no dia a dia. A presença de equipes completas é intermitente, chegando, em alguns casos, a ocorrer apenas uma vez ao ano.

Como ACS e UBS Fluviais ampliam o acesso em territórios isolados
Os Agentes Comunitários de Saúde (ACSs) são, em muitos territórios, os únicos profissionais presentes de forma contínua. Eles acompanham famílias, realizam visitas domiciliares e apoiam a organização do cuidado, desempenhando um papel central para mitigar a distância física em relação aos serviços.
As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) Fluviais aproximam equipes multidisciplinares de comunidades de difícil acesso, oferecendo atendimentos clínicos e odontológicos, vacinação, testagem rápida para Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e ações de atenção primária. Embora enfrentem desafios operacionais, como custos elevados de combustível, necessidade de manutenção e a demora para que essas unidades sejam oficialmente habilitadas a receber recursos federais, sua atuação é considerada positiva por gestores, profissionais e usuários. A periodicidade limitada das viagens, porém, reduz a capacidade de garantir a continuidade do cuidado.

Soluções locais que fortalecem a atenção à saúde em regiões ribeirinhas
A pesquisa identificou diversas soluções desenvolvidas nos próprios territórios para enfrentar barreiras de acesso à saúde na Amazônia. Em algumas comunidades do Amazonas, microssistemas de água foram implementados com participação local, enquanto organizações da sociedade civil distribuíram filtros de purificação.
Também foram documentadas estratégias de mobilidade adaptadas ao território. Municípios como Afuá utilizam bicilâncias e ambulanchas para urgências, respondendo às condições geográficas específicas da região. Em Carauari, a Casa de Apoio ao Ribeirinho oferece estadia, alimentação e atendimento inicial para quem precisa se deslocar da reserva extrativista até a sede municipal.
A telessaúde aparece como outro elemento relevante, especialmente em iniciativas de universidades e serviços especializados. Experiências de telemonitoramento e teleconsultoria, como no Projeto Telemonitoramento de Pré-natal de Alto Risco em áreas Remotas do Amazonas, o TELEPNAR, voltado ao acompanhamento de gestantes de alto risco, apoiam as equipes de atenção primária e reduzem deslocamentos.
O estudo também observa que práticas tradicionais de cuidado coexistem com o sistema formal em diversas comunidades, e a atuação dos ACS pode facilitar essa integração, contribuindo para abordagens culturalmente adequadas.
Recomendações para aprimorar a atenção à saúde na Amazônia remota
O relatório apresenta recomendações para fortalecer a atenção à saúde em territórios remotos, entre elas a ampliação do transporte fluvial para equipes, insumos e pacientes, e a adoção de medidas que favoreçam a fixação de profissionais em áreas de difícil acesso. Também indica a necessidade de investimentos em infraestrutura, energia, saneamento e telecomunicação, para viabilizar o funcionamento das unidades e a expansão da telessaúde.
Do ponto de vista organizacional, recomenda-se fortalecer a integração entre níveis de atenção e valorizar práticas que respeitem as particularidades socioculturais das comunidades.
As experiências analisadas mostram que soluções adaptadas ao território podem produzir resultados significativos mesmo diante de desafios estruturais. Ao reunir dados e exemplos concretos, o estudo contribui para o aprimoramento de políticas públicas e para o desenvolvimento de estratégias baseadas em evidências voltadas à garantia do direito à saúde de populações isoladas e remotas.

