Efeitos do El Niño e eventos climáticos extremos alertam para riscos à saúde pública no Brasil

Um evento de intensidade “muito forte” do El Niño deve atingir seu pico no Brasil entre novembro e dezembro de 2026 e permanecer até o início de 2027 trazendo riscos à saúde pública. O alerta do Super El Niño divulgado pelo Ministério da Saúde prevê seca e aumento de queimadas no Norte e Centro-Oeste, aprofundamento da estiagem e calor extremo no Nordeste, ondas de calor e temporais no Sudeste, e chuvas acima da média em áreas da região Sul, com alerta para enchentes.
Análise da Situação de Saúde Pública diante do evento climático El Niño 2026-2027 publicada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) identifica as doenças infecciosas e parasitárias entre os principais riscos de saúde pública associados ao clima, ao lado do agravamento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) causado pelo calor, da sobrecarga do sistema respiratório com o aumento dos incêndios florestais e impactos na saúde mental decorrentes de deslocamentos forçados e perda de meios de subsistência.
Ministério da Saúde fortalece resposta do SUS no combate aos efeitos do El Niño
Para conter esse cenários, o Ministério da Saúde instituiu um painel permanente de especialistas em clima e saúde que publica boletins mensais de monitoramento associado ao El Niño no Brasil.
Além disso, como frente estratégica do Plano de Adaptação do Setor Saúde à
Mudança do Clima (AdaptaSUS) lançado na COP30, o Ministério desenvolveu o Plano de Preparação e Resposta a Emergências em Saúde Pública associadas ao El Niño 2026-2027 com diretrizes para o enfrentamento, O documento alerta que o principal risco para a saúde e para os serviços de saúde relacionados à mudança do clima é o potencial de aumento da ocorrência de doenças, óbitos e ampliação da demanda pelos serviços de saúde.
A estratégia também prevê a integração dos principais sistemas de informação para centralizar os dados epidemiológicos do país:
- E-SUS Notifica (monitora problemas de saúde pública e síndromes gripais);
- Sivep-Gripe – Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (consolida dados de internações e óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave e infecções respiratórias severas) e
- Sinan – Sistema de Informação de Agravos de Notificação (coleta e analisa dados sobre doenças como dengue, malária e leptospirose).
Consequências do El Niño 2023-2024 na saúde pública brasileira
O El Niño de 2023-2024 estendeu-se até abril de 2024 e provocou danos à saúde pública em todas as regiões do Brasil:
- Enchentes históricas no RS colapsaram o saneamento básico de dezenas de municípios, causando mortes por leptospirose, hepatite A e diarreia grave.
- A pior seca em sete décadas no Norte e Nordeste levou a população ao armazenamento inadequado e consumo de água não potável, impulsionando criadouros do Aedes aegypti e casos de parasitoses e gastroenterites.
- Secas e temperaturas recordes no Centro-Oeste e Sudeste aceleraram a capacidade vetorial da dengue no verão, gerando um pico de casos no início do ano e óbitos concentrados nos meses seguintes devido ao avanço da doença e à sobrecarga hospitalar.
- Amazônia e Pantanal registraram recordes de incêndios florestais que afetam o aparelho respiratório causando ou agravando quadros de asma, bronquite, pneumonia e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).
El Niño impactou mortes por dengue em 2024 e pode agravar casos em 2027
Apesar de o El Niño favorecer a proliferação de doenças, os dados do DATASUS-SIM disponíveis no Observatório de Saúde Pública, da Umane, apontam uma variação modesta no volume total de óbitos por doenças infecciosas e parasitárias: foram 75.370 mortes em 2024 e 73.442 em 2023 (alta de 1.928 óbitos), mantendo a taxa estabilizada em 35 por 100 mil habitantes em ambos os anos.
A alta pontual refletiu a epidemia de dengue que o país viveu em 2024, agravada pelo El Niño. Dados do Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde mostram que o país registrou 6.484.890 casos prováveis de dengue e 5.972 mortes provocadas pela doença em 2024.


No Rio Grande do Sul, o DATASUS-SIM registra março (467) e abril (498) como o pico de óbitos por doenças infecciosas ou parasitárias em 2024, meses de mais mortes por casos de dengue no Brasil. O volume de óbitos supera o de 2023, quando março registrou 298 mortes (alta de 169) e abril 463 (alta de 35).
O Ministério da Saúde alerta sobre possível aumento de arboviroses, como dengue e chikungunya, agravado pelo El Niño de 2026. Nas projeções do InfoDengue/Fiocruz, o Brasil deve registrar 1,7 milhão de casos de dengue em 2027.
El Niño acelerou mortes por doenças do aparelho respiratório em 2024
Estudos e monitoramentos da Fiocruz confirmam que as doenças respiratórias e a mortalidade por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em 2024 foram intensamente influenciadas pelos efeitos climáticos extremos do El Niño.
Apesar de o DATASUS não indicar eventos climáticos como causa primária nas declarações de óbito, o comparativo entre 2023 e 2024 mostra como as doenças do aparelho respiratório (como pneumonia, asma e bronquiolite) oscilaram sob o impacto do clima.
Em 2024, dados do DATASUS-SIM registraram 194.063 mortes por doenças do aparelho respiratório em todos os municípios do Brasil, 23.931 vidas perdidas a mais em relação a 2023, que totalizou 170.132 óbitos. A taxa de mortalidade por 100 mil habitantes subiu de 80 (2023) para 91 (2024) em um ano:
- Todos os meses de 2024 registraram número maior de óbitos em comparação com os mesmos meses de 2023.
- Em 2023 a alta de mortes ocorreu no mês de julho (17.187). Em 2024 a alta foi antecipada para maio (19.409), marcando o mês mais letal do período analisado.
- Abril teve o maior aumento em número de óbitos comparando 2023 (14.557) e 2024 (17.771). A diferença de 3.214 óbitos marcou uma aceleração ainda no início do outono.
O patamar elevado do número de óbitos em 2024 se sustentou durante todo o outono/inverno, nos meses de maio (19.409), junho (18.456), julho (18.756) e agosto (17.585).


A análise da Fiocruz aponta que os eventos climáticos associados ao El Niño alteraram o padrão habitual das doenças respiratórias, antecipando picos das doenças e aumentando a gravidade dos casos em 2024.
O desafio da resiliência sanitária no Brasil
A influência de eventos climáticos extremos como o El Niño sobre a saúde pública deixou de ser uma ameaça futura. Atenta a essa e a outras transformações da conjuntura atual, a Agenda Mais SUS 2027-2030, elaborada pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e pela Umane, apresenta dez propostas prioritárias para fortalecer o sistema de saúde no próximo ciclo de gestão, tomando como base os avanços e desafios do SUS nos últimos quatro anos.
O Eixo II da publicação elenca ”preparar o SUS para a próxima emergência: fortalecer o marco normativo da vigilância” e “integrar dados de clima, território e saúde na vigilância do SUS” como duas das cinco propostas sobre os desafios emergentes que impactam diretamente o sistema de saúde brasileiro,
A iniciativa reconhece que a resposta às mudanças climáticas precisa estar no centro das políticas públicas na mesma velocidade em que o clima altera o perfil de adoecimento da população.
Leia mais no blog da Umane: Calor extremo, saúde e desigualdades: o que os dados mostram sobre impacto climático

